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sábado, 18 de dezembro de 2010

A sabedoria do silêncio

Felicidade, saúde e possibilidades infinitas é o que promete Deepak Chopra, o médico indiano que virou guru nos Estados Unidos. Sua receita é tão fácil quanto fascinante: reserve alguns minutos do dia para ficar em silêncio. Começa aí a mudança de consciência que, segundo ele, pode mudar o mundo. Por Lúcia Cristina de Barros

Deepak Chopra cita Shakespeare e Walt Whitman, o poeta americano. Do primeiro fala que "somos a matéria da qual são feitos os sonhos"; do segundo lembra que "tudo que pertence a você pertence a mim". "Essas não são metáforas, é a realidade", diz. "Nós não somos nosso corpo físico. Esse corpo é o lugar que nossas memórias, sonhos e esperanças chamam de lar por enquanto. Esse corpo não é a matéria sólida que vemos, e sim um rio de informações, que tem em si partículas que já estiveram em outros corpos e no mundo inteiro."
Poesia e prática, filosofia e ciência misturam-se no discurso deste endocrinologista de formação e guru a contra-gosto. De camisa xadrez e calça marrom, chegando do almoço num restaurante no bairro do Itaim, em São Paulo, Chopra é um homem de 1,70 m de altura, com uma barriguinha incômoda para quem faz exercício todo dia e olhos muito escuros, muito vivos. Ele é também um fenômeno: já vendeu mais de 10 milhões de livros em 30 idiomas, e diversificou seu negócio para incluir CDs, vídeos, séries de TV, filmes. Suas idéias lhe rendem cerca de US$ 15 milhões por ano e uma legião de admiradores que vão de Madonna e Demi Moore a executivos de algumas das maiores empresas do mundo, sem falar de políticos e reis.
Estudando a consciência há 20 anos, Chopra, 52, tem uma mensagem tão fácil quanto fascinante: para ele a consciência é responsável pelo mundo físico e quem desperta a sua está no caminho da saúde perfeita e da abundância --tudo o que todo mundo quer. Por isso mesmo 2.500 pessoas lotaram dois teatros em São Paulo, no mês de junho, pagando R$ 200 por convite, para ouvir Chopra, que já tinha vindo ao Brasil há 12 anos, no lançamento de seu primeiro livro. Na primeira palestra ele falou sobre "As Sete Leis Espirituais do Sucesso", seu maior best-seller no país. Na segunda, falou sobre "Intuição na Liderança", definindo as características dos líderes do próximo milênio para centenas de executivos que esqueceram de desligar seus celulares mesmo quando mantras eram entoados. Cada noite rendeu ao autor cerca de US$ 25 mil.
Nascido em Nova Delhi, na India, Deepak Chopra mudou-se para os Estados Unidos nos anos 70, e lá tornou-se um médico bem-sucedido, professor universitário e chefe de equipe do Memorial Hospital de Nova York. A grande virada em sua vida começou nos anos 80, quando descobriu a meditação. Ele parou de fumar e beber, tornou-se discípulo do guru indiano Maharishi Mahesh Yogi e representante nos Estados Unidos de uma empresa de divulgação e venda de produtos tradicionais (óleos, infusões e ervas) da medicina Ayurveda, a mais antiga do mundo, baseada no relacionamento entre ser humano e natureza.
Sua origem indiana, formação em medicina e sucesso profissional fizeram de Chopra o homem certo para criar uma ponte entre Oriente e Ocidente, divulgando não só a Ayurveda (ciência da vida), mas diversos ensinamentos dos "Vedas", antigas escrituras em sânscrito que datam de mais de cinco mil anos e reúnem a sabedoria indiana sobre todos os campos do conhecimento. O trabalho de Chopra é unir o que há de melhor nessa tradição aos conceitos mais avançados da ciência – tudo explicado em linguagem que faz sentido para o leitor contemporâneo.
Metade do tempo, este homem que não se define (não é autor, nem palestrante, nem mesmo Deepak –-já que, para ele, "definir-se é limitar-se") viaja pelo mundo, dando suas palestras. Não tem frescuras, seguranças ou assistentes. Pega o avião sozinho, desembarca no seu destino, faz o trabalho que tem que fazer --com uma atitude que mistura em doses iguais gentileza e determinação. Ele é simpático com seus admiradores, posa para fotos, autografa livros, abraça e beija novos conhecidos. Mas também deixa bem claro o que está disposto a fazer ou não.
A outra metade do tempo Chopra passa em La Jolla, um lugar maravilhoso na Califórnia, pertinho de San Diego, onde ele vive e dirige seu Center for Well Being (Centro para o Bem-Estar). É onde seus ensinamentos se materializam em cursos e tratamentos como yoga, meditação e desintoxicação (com técnicas que antigamente eram reservadas à realeza indiana). A idéia é cuidar ao mesmo tempo do espírito, da mente e do corpo.
Para quem torce o nariz para esse caldeirão borbulhante de idéias que prometem, no fim das contas, a milagrosa felicidade, Chopra diz apenas, com um sorriso: "Milagre é a palavra que usamos para designar o que ainda não entendemos. E os milagres de hoje são a ciência de amanhã."
Marie Claire - Tudo parece dar certo na sua vida. Quando o senhor exercia a medicina, era um importante endocrinologista. Quando decidiu começar a escrever, seus livros viraram best-sellers e hoje o senhor é uma das figuras mais importantes do que poderíamos chamar de "novo paradigma" na medicina, que é o reconhecimento da conexão mente-corpo. O senhor acha que essa trajetória era seu destino ou nós fazemos o nosso próprio destino?
Deepak Chopra - Acho que são as duas coisas. O que acontece é que uma série de situações, circunstâncias e eventos criaram as oportunidades certas para mim, como podem criar para você. Por outro lado, também coloquei minhas próprias intenções para fazer com que as coisas acontecessem. A verdade é que você está fazendo uma pergunta que os filósofos se fazem há milhares de anos: nós somos produto de um destino pré-determinado ou temos livre-arbítrio? A resposta é: as duas coisas. Quem não tem consciência vive num mundo pré-determinado. Quem tem consciência torna-se alguém que pode escolher e exerce esse poder. Entre esses extremos, então, de quem está totalmente inconsciente e de quem já atingiu a iluminação, há uma mistura de destino e livre-arbítrio atuando nas nossas vidas.
MC - O senhor num determinado momento mudou a sua vida: deixou a prática diária da medicina e se tornou um escritor e palestrante que roda o mundo e tem uma legião de seguidores. Como se deu esse processo?
Chopra - Eu mudei minha vida muitas vezes. A cada dois anos tomo um novo rumo, diferente daquele que eu vinha trilhando. Acredito que a chave para esse processo de mudança é querer deixar o passado para trás e estar confortável diante do desconhecido, do incerto. Caso contrário, podemos fingir que somos livres, mas de fato não somos. Estaremos apenas respondendo às circunstâncias de forma reflexiva. Em geral o que acontece é que as pessoas escolhem uma direção na vida e pronto: é isso. Elas definem quem são e definir-se é limitar-se. Eu nunca tentei me definir: sou um médico, ou sou um escritor, ou sou um palestrante. Esse tipo de categorização não importa. Quando você não se define, pode ser qualquer coisa: você entra no campo das possibilidades infinitas.
MC - Seu trabalho poderia ser incluído na área da auto-ajuda, que vem crescendo muito e é um espaço fértil para charlatães. Como separar o joio do trigo?
Chopra - Não sei se eu diria que desenvolvo um trabalho de auto-ajuda. Talvez você possa chamar assim. Mas eu prefiro os termos auto-realização, transformação, potencial humano. Bem, é verdade que há muitos charlatães trabalhando nessa área, assim como em todas as áreas. A gente tende a imaginar que todo mundo é sério, por exemplo, na medicina. Mas há muitos médicos picaretas, cientistas picaretas. Pessoas desonestas existem em qualquer lugar, em qualquer profissão. Não devemos presumir que na área dos estudos da consciência há mais gente desonesta do que nos meios científicos, ou em administração, ou o que for. Cabe às pessoas fazer escolhas informadas. Se eu digo que um determinado tratamento com ervas medicinais é bom para você, você pode entrar na internet e fazer uma pesquisa sobre o que são aquelas ervas, que estudos existem a respeito de sua eficácia, quais as suas indicações. Assim você pode decidir por sua conta se estou dizendo a verdade ou não. Quando afirmo que a meditação funciona e que há centenas de estudos científicos que provam que sua prática regular traz uma série de benefícios para as pessoas, você pode checar o que eu digo, não precisa simplesmente acreditar em mim. Aliás, não precisa e nem deve simplesmente acreditar em qualquer coisa que seja dita. O consumidor informado, educado, consciente sabe que hoje é possível obter dados sobre absolutamente qualquer assunto. Se você se der ao trabalho de buscar informações, vai encontrá-las. Então quem tem interesse em meditação, técnicas avançadas dessa prática, espiritualidade, deve ir atrás de informações, checar essas informações e fazer escolhas informadas.
MC - Seu nome está cada vez num maior número de produtos. O senhor não tem medo que essa expansão dos seus negócios acabe por transformá-lo numa espécie de fast-food da espiritualidade? Como o senhor mantém controle sobre tudo o que está sendo produzido e que leva a sua marca?
Chopra - A maioria dos produtos que hoje levam o meu nome são livros, fitas de vídeo, cassetes e CDs. Há poucos produtos de ervas e algumas outras coisas. Nesse exato momento minha organização está passando por uma transformação. Estou abrindo mão de todos os demais produtos para me concentrar em escrever meus livros, fazer meus vídeos e gravar meus cassetes e CDs. O resto vou entregar nas mãos de instituições reconhecidas, para que tomem conta de tudo. Ao mesmo tempo, fundei uma organização não lucrativa para poder canalizar os lucros da venda desses produtos para pesquisas e educação. Há sempre uma percepção de que quando alguém se torna popular, e hoje eu sou popular, todo o trabalho daquela pessoa é puramente moda, é aquilo que você está chamando de fast-food. Só que no meu caso não é. Meu trabalho é autêntico e não posso fazer nada se cada vez mais pessoas percebem isso e gostam disso.
MC - Uma crítica comum ao seu trabalho é que o senhor pega a sabedoria milenar indiana e transforma em pílulas para o consumo rápido do Ocidente.
Chopra - Na verdade, o que faço é interpretar de forma contemporânea o antigo conhecimento indiano. Porque se você for até a fonte, ou seja, se resolver estudar as antigas escrituras indianas, vai descobrir que há muita superstição, muita bobagem, muita porcaria ali, infelizmente. Assim, é preciso ser seletivo. Só porque alguma coisa é antiga, não quer dizer que seja boa. Muita gente faz essa confusão: acha que tudo que é antigo é sábio. Essa postura presume que nossos ancestrais sabiam mais do que nós sabemos hoje, e isso é falso. Nós temos a vantagem de saber o que eles sabiam e muito mais, graças ao que pudemos aprender através da ciência e da tecnologia. O que faço é, primeiramente, ser seletivo em relação à antiga sabedoria. Eu não tenho uma fé cega na milenar sabedoria indiana. Também não tenho uma fé cega num glorioso passado indiano, nem nas escrituras védicas, nem na espiritualidade do povo indiano. Muito disso tudo é exagerado, especialmente pelos próprios indianos – que são, aliás, um dos povos mais superficiais do mundo. Os indianos posam de grandes espiritualistas quando são materialistas ferrenhos, preocupados sobretudo em copiar o Ocidente.
MC - Então por que essa fama de que eles são tão espiritualizados?
Chopra - Nós tendemos a avaliar uma civilização ou uma cultura por seus luminares. Se pensamos na Grécia Antiga, por exemplo, o que nos vem à mente é Pitágoras, Sócrates, Aristóteles, Platão… Pensamos: ‘Uau! Que grande civilização!’ Mas, na verdade, os gregos naquela época eram na sua maioria bárbaros: sexistas, escravagistas, jogavam as pessoas com defeitos físicos aos leões. Essa era a Grécia. O mesmo é verdade da antiga civilização indiana. Há alguns poucos luminares, como o poeta Rabindranath Tagore ou Mahatma Gandhi. Você olha para os grandes homens e diz: puxa, a India era uma maravilha. Mas nem tudo na India era uma maravilha. Não vamos fingir que tudo que existia na India poderia ser aprovado sem reservas. É preciso ser seletivo. Antigo e eterno são conceitos diferentes. Algumas coisas antigas podem servir ou não para os dias de hoje. Já o que é eterno é válido sempre, a qualquer tempo. Meu trabalho é selecionar o que é eterno e explicar de forma lógica. Se eu não puder explicar de forma científica, lógica, eu não incorporo ao meu trabalho.
MC - A saúde perfeita é possível?
Chopra - Eu acredito que a saúde perfeita é o estado natural de todos os seres humanos.
MC - Mas do que a gente morreria se nunca adoecesse?
Chopra - A gente morreria, provavelmente, de tédio. (rindo)
MC - Mas e se a gente estivesse se divertindo?
Chopra – Aí, provavelmente, viveríamos por muito, muito tempo. Esta é uma questão absolutamente fascinante. Se olharmos para um grupo de pessoas idosas, digamos com mais de 100 anos, algumas delas terão artrite, mas nem todas; algumas terão doenças coronárias; mas nem todas; outras terão câncer, mas nem todas. O que você coloca, portanto, é que quando as pessoas envelhecem elas têm mais chances de apresentar doenças. Mas o fato de que algumas pessoas idosas adoecem e outras não significa que, apesar de certas doenças serem mais comuns entre os idosos, elas não são obrigatórias. Este é um insight interessante, que outras pessoas já notaram: envelhecer não significa que você tem que, necessariamente, adoecer. Mas aí vem o problema: do que nós morreríamos? Bem, com os conhecimentos científicos disponíveis hoje, acredita-se que o ser humano tem um relógio biológico com um limite que estaria, atualmente, por volta de 120, 121 anos. A teoria é que, basicamente, quando o relógio atinge essa idade a pessoa morre. Se isso é verdade ou não, ainda precisa ser verificado. Pessoalmente, acredito que viver para sempre acabaria por nos condenar ao tédio e à senilidade eternos. Quando nós percebemos de verdade quem somos, queremos sempre ter uma experiência nova de vida. Se eu compro um Jaguar hoje, posso achar que é um belo carro, mas daqui a alguns anos vou querer uma Ferrari, e depois vai ser qualquer outra coisa. O ser humano é assim: se cansa das coisas.
MC - Por falar nisso, é verdade que o senhor coleciona carros de luxo?
Chopra - Não. Fiz isso há vinte anos. Eu tinha uma coleção de Jaguares, que fui dando ao longo do tempo. Hoje em dia não dirijo, caminho. Não tenho sequer a carteira de motorista. Onde eu vivo, em La Jolla, na Califórnia, não é preciso dirigir para se locomer. A maior parte do tempo eu ando. E quando estou viajando, alguém dirige para mim, ou tomo um ônibus, ou um trem. Não estou mais preocupado com esse tipo de coisa.
MC - Voltando à questão da saúde. Quando o senhor fica doente, a que tipo de tratamento recorre?
Chopra - Eu nunca fiquei doente.
MC - Como assim? Desde quando?
Chopra - Desde que eu me lembre.
MC - O senhor está brincando. Nem um resfriado?
Chopra - Nem um resfriado, não que eu me lembre. Ninguém na minha família fica doente. Esse é um conceito estranho para nós. Meus filhos nunca tiveram nenhum problema de saúde. Acho que é porque somos uma família saudável. Meu pai está com 80 anos e ainda trabalha diariamente, atendendo seus pacientes. Ele é cardiologista e trabalha 12 horas por dia, não pára nunca. Quer dizer, hoje, claro, ele também acha tempo para meditar e medita todos os dias, graças a mim. Mas somos uma família de fato interessante, ninguém adoece. Meu avô, aliás, morreu de contentamento. Ele tinha um grande orgulho das conquistas do meu pai, que tinha se formado cardiologista. Um dia ele recebeu um telegrama avisando que meu pai tinha se tornado membro do Royal College of Physicians, na Inglaterra. Ele ficou tão feliz que acabou morrendo. Foi mesmo uma morte por alegria.
MC - O senhor às vezes fica estressado? Tem alguma coisa que o deixa estressado?
Chopra - Não, eu não fico estressado. Às vezes eu fico bravo, e claro que você poderia dar a esse sentimento outros nomes, se quisesse. Mas o fato é que quando me aborreço demonstro minha raiva por cinco minutos e pronto, acabou. E é muito difícil que eu fique realmente chateado. As coisas simplesmente não me incomodam.
MC - E antigamente, o que tinha a capacidade de estressá-lo?
Chopra - Receber críticas. Mas não mais. Aliás, outra coisa: o tráfego de São Paulo. Mas agora nem esse trânsito que vocês têm aqui me incomoda mais. De verdade.
MC - E qualquer pessoa pode chegar a essa tranquilidade e enfrentar o trânsito de São Paulo sem estresse?
Chopra - Sim, qualquer pessoa. O que acontece é que depois de algum tempo a gente percebe que está fazendo tempestade em copo d’água. Tudo é levado tão a sério, tudo vira um drama, uma novela. A vida não precisa ser assim. Depende de como você encara.
MC - Quais suas melhores qualidades?
Chopra - Eu sou divertido. Meus dois filhos podem confirmar isso. Nós nos divertimos muito juntos. Também acho que escrevo bem e sou um bom orador, um comunicador competente.
MC - O que o senhor costuma fazer com seus filhos para se divertir?
Chopra - Nós escalamos montanhas, mergulhamos, pulamos de pára-quedas... Adoramos esportes e praticamos em qualquer lugar do mundo. Podemos fazer mergulho no Caribe, esquiar na Europa, escalar uma montanha na Califórnia. O importante é que gostamos muito de atividades ao ar livre e sempre que estamos juntos fazemos alguma coisa assim.
MC - E isso acontece com frequência? Parece que o senhor passa a maior parte do tempo viajando.
Chopra - Eu diria que passo metade do meu tempo viajando. E minha intenção é parar com as viagens em dois anos. Mas isso ainda está no futuro, vamos ver o que acontece. Mesmo viajando bastante, porém, tenho tempo para minha família. Muitas vezes eles viajam comigo, se estou indo a algum lugar interessante. Se vou a Detroit, eles não vão junto. Mas se vou ao Havaí, aí vai a família toda.
MC - O senhor pode falar um pouco sobre sua família? O que fazem os seus filhos?
Chopra - Meu filho, Gautama ou Gotham, tem 24 anos, é escritor de ficção e também assina quadrinhos. Ele acaba de terminar uma série de quadrinhos de grande sucesso, "Bullet Proof Monk" (Monge à Prova de Balas), que mistura artes marciais e espiritualidade e será transformada em filme. Ele também apresenta um programa de TV especial, sobre espiritualidade, que é assistido diariamente por 10 milhões de crianças. Ele é um cara muito popular. Quando terminou a faculdade, no ano passado, se mudou para Los Angeles e agora está preparando dois romances. Minha filha, Mallika, tem 26 anos e está fazendo mestrado em Chicago. Ela estuda entretenimento e espiritualidade e pretende pegar meu trabalho e transformá-lo em algo mais acessível para um público mais jovem. Meus dois filhos meditam desde os 4 anos de idade.
MC - Mas no seu livro "As Sete Leis Espirituais para os Pais" o senhor não recomenda que as crianças só sejam introduzidas na prática da meditação a partir dos 6 ou 7 anos?
Chopra - Mas eu quebrei as regras. (rindo)
MC - Ok, o senhor pode. Bom, e sobre sua mulher?
Chopra - Minha mulher e eu somos casados há… meu Deus, faz tanto tempo… Quanto tempo? Ah, 28 anos. Nós temos uma relação maravilhosa porque é baseada na mais completa aceitação e confiança. Eu aceito e confio na minha mulher 1000% e ela me aceita e confia em mim. Por isso é uma relação muito bonita. Nós crescemos juntos ao longo de todos esses anos. Ela ajuda no Chopra Center for Well-Being tomando conta da decoração e escolhendo as obras de arte, que são muitas. Sempre que viajo fico prestando atenção em quadros, esculturas, qualquer coisa que eu ache que a Rita possa gostar. Ela coleciona arte – não necessariamente de artistas famosos, mas qualquer obra que a emocione.
MC - Há alguma coisa que o senhor gostaria de mudar na sua personalidade -- ou já mudou tudo o que queria?
Chopra - Já mudei o que me incomodava. Eu era muito intolerante, e não só com relação a críticas. Eu era intolerante com as pessoas em geral, com a demora de as pessoas entenderem as coisas. Era muito impaciente. Mas, ao longo dos últimos anos, alterei essas qualidades.
MC - Como é um dia típico na sua vida?
Chopra - Num dia típico eu levanto às quatro da manhã, medito por cerca de uma hora e meia a duas horas, e então vou fazer ginástica. Eu construí uma academia em casa e tenho um treinador que vem às 6h. Faço aula de tudo que você possa imaginar: bicicleta, yoga, boxe. O treinamento vai até as 7h30. Mesmo quando viajo não deixo de fazer exercícios. Hoje mesmo usei a academia do hotel. Depois, sento para escrever por duas horas, até as 9h30. O resto do dia faço o que as pessoas me mandam fazer. (risos) Até as 9h30 é meu tempo sagrado. Depois das 9h30 é o tempo de todo mundo, de quem quiser o meu tempo. Às 16h dou uma parada novamente.
MC - Nas suas palestras e nos seus livros o senhor cita muita poesia. Ler poesia é um hobby seu? E o senhor também escreve poemas?
Chopra - Eu escrevo poesia e já publiquei dois livros: um de poemas meus e outro com traduções originais de Rumi [poeta místico do Islã do século XIII]. Também coloquei música nos poemas dele e convidei algumas grandes vozes para declamá-los num CD: gente como Madonna, Demi Moore e outros grandes artistas e filósofos. Esse CD está fazendo um enorme sucesso, aliás. Estou preparando uma nova tradução, desta vez sobre os sentidos da morte na poesia de Rabindranath Tagore [poeta e filósofo indiano, ganhador do prêmio Nobel de Literatura de 1913]. Além de poemas, escrevo romances. Já escrevi três histórias, sendo que uma delas, "The Lords of the Night" (Os Senhores da Noite), acabou de sair nos Estados Unidos, foi publicada na semana passada. É um romance baseado na Cabala, o tema é a religião. Conta a história de um falso profeta que aparece em Jerusalém mas que, na verdade, é o diabo. Então ele tem que ser mandado de volta para o inferno. Esse livro vai virar filme.
MC - O senhor é religioso?
Chopra - Não. Acredito que Deus nos deu a Verdade e aí veio o Diabo e disse: vamos organizar essa sabedoria, e é a isso que chamamos religião. Se você analisa as religiões, o que está em jogo é sempre poder, controle, dogma, ideologia, julgamento, punição. Deus é sempre um pai disfuncional em todas as religiões. A relação dos fiéis com o Deus das religiões é aquela de uma criança com um pai disfuncional, em vez de um pai amoroso. Mas Deus é puro amor.
MC - Alguns de seus últimos livros parecem apenas reciclar o que o senhor já havia dito em obras anteriores. O senhor ainda tem tempo para estudar?
Chopra - Eu estudo muito e sempre. A cada três meses, por exemplo, tiro uma semana para ficar em silêncio. Nesse período não tenho contato com ninguém. Meus assistentes acham o lugar certo, que pode ser em qualquer parte do mundo, desde que atenda a esse requisito de ser totalmente isolado. Já estive numa floresta na Costa Rica, no deserto da Califórnia, nos canyons em Utah. Meu próximo retiro será na Louisiania, quando este tour acabar. Fico lá sem relógio, telefone, fax, celular, nenhum contato humano. Alguém me deixa lá e volta para me buscar em seis ou sete dias. Um tempo de estudo, reflexão e silêncio.
MC - Um dos seus livros cita que o luxo seria a condição natural do ser humano…
Chopra - O luxo, não. A abundância. Não sei como está a tradução, mas o conceito é abundância. Essas são coisas diferentes. Eu acredito que a abundância é o estado natural do ser humano, é um estado de consciência em que você não se preocupa com nada.
MC - Como assim? O universo provê?
Chopra - Claro, mas o universo é você.
MC - Mas então você tem que ir lá e fazer as coisas acontecerem, e vai acabar se preocupando. Dá na mesma.
Chopra - O que você tem que fazer é perceber qual a fonte das coisas, de onde elas vêm. As pessoas me perguntam: de onde vai vir o dinheiro no fim do mês? Eu respondo: onde ele está no momento. O que é o dinheiro? Nós podemos simplesmente imprimir papel colorido e usá-lo como dinheiro? Não. Então de onde vem o dinheiro? Um amigo meu que trabalha com a Internet fez US$ 1,4 bilhão em um dia. Eu perguntei a ele: de onde vem todo esse dinheiro? Vem da consciência. O dinheiro é um símbolo, só isso. O dinheiro é um símbolo daquilo que consideramos útil e valioso – em outras palavras, é energia. Se a sociedade diz: bom, nós queremos ver filmes pornográficos, tem dinheiro nesse negócio. Porque é isso o que a sociedade está considerando que tem valor. Ou a sociedade diz: queremos fumar. Pronto: tem dinheiro aí. O dinheiro é uma forma de simbolizar o que a sociedade valoriza.
MC - E isso muda ao longo do tempo.
Chopra - Com certeza. E para saber onde está o dinheiro é muito interessante olhar para o passado, ver quais as fontes históricas de riqueza. Quando éramos caçadores e colhedores, o que não faz assim tanto tempo, tínhamos duas reações possíveis frente aos animais: lutar ou fugir. Diante dessa realidade, a origem da riqueza era qualquer coisa que pudesse matar, qualquer instrumento que facilitasse a caça: como o arco, a flecha e a lança. Muitos de nós ainda hoje somos caçadores, e para esses a fonte de riqueza são as armas. Depois, quando nos tornamos uma sociedade agrícola, o que passou a ter valor foram os produtos agrícolas e também os animais, porque você precisava ter vacas, galinhas, porcos. Os bichos eram parte daquele universo, assim como a terra. Já na era industrial, a fonte de riqueza eram as máquinas. Mas de que são feitas as máquinas? De aço, ferro, cobre. Então os recursos naturais passaram a ter valor. Agora estamos além desse modelo, numa sociedade pós-industrial. Qual a origem da riqueza hoje? Informação. Os países mais ricos do mundo são aqueles que produzem chips de silicone, que não são mais do que poeira com a capacidade de armazenar informação. Nesse exato momento estamos passando da era da informação para a era da consciência e a fonte de riquezas será a inteligência. Portanto, quem quiser ganhar dinheiro daqui para a frente deve parar de produzir cigarros e pornografia e começar a vender sabedoria. É melhor começar a pensar em riqueza como sinônimo de consciência. A idéia é que se você é capaz de dar, se é capaz de alimentar relacionamentos, isso alimenta seu diálogo interno, sua consciência. E fica claro que os relacionamentos são a coisa mais importante.
MC - O senhor é feliz?
Chopra - Sou um homem feliz, sim, mas não totalmente realizado. Uma parte de mim permanece em busca e espero que isso não mude nunca. Caso contrário vou morrer de tédio, como dizíamos antes.
MC - O que importa na sua vida hoje?
Chopra - Paz, harmonia, riso e amor. Esses não são conceitos abstratos, são realidade.
MC - E quais os seus próximos objetivos?
Chopra - No momento, estou trabalhando para estabelecer duas instituições não-lucrativas que serão centros de ensino da consciência para quem não pode pagar por esse conhecimento. Sei que muitas pessoas gostariam de fazer os cursos que oferemos no Centro em La Jolla, por exemplo, mas acham caro, elas têm que usar o dinheiro para pagar o aluguel. A idéia é levantar fundos com quem tem para financiar os estudos de quem não poderia pagar de outra maneira. Acredito que há duas formas de caridade: numa, você dá dinheiro para ajudar aqueles que não têm; em outra, você cria condições para que as pessoas se tornem independentes. A única caridade válida é aquela que faz com que as pessoas não voltem a precisar de caridade no futuro. É por isso que quero estabelecer instituições que ensinem às pessoas os princípios do auto-conhecimento, da criatividade e da intuição. Esse é o meu objetivo pelos próximos dois anos e tenho trabalhado muito por isso. Uma instituição será nos Estados Unidos e a outra na Europa, numa ilha grega.
MC - Por que uma ilha grega?
Chopra - Porque estive lá, comentei que era um lugar maravilhoso e me disseram que se eu quisesse criar lá uma instituição educacional, eu receberia a terra de graça. Então foi assim que tudo isso começou. E eu dedico a esse projeto o meu tempo, a minha energia, condições e dinheiro para que essa idéia se torne realidade. Além disso, tenho mais livros a caminho, alguns filmes, uma série de documentários em mitologia. Há muita coisa muito legal por vir.
MC - O senhor fala muito no conceito de "dharma", que poderíamos explicar como o caminho natural de cada pessoa, aquele que traz mais felicidade e crescimento. Como descobrir nosso dharma?
Chopra - Perguntando a si mesmo: se eu tivesse todo o tempo do mundo e todo o dinheiro do mundo, o que eu faria? Esse é o seu dharma, e uma vez que você o encontra, uma vez que você se coloca no seu caminho, nada pode detê-lo.
MC - E até para ajudar nessa descoberta do dharma, qual sua recomendação para as pessoas que estão em busca de mais felicidade?
Chopra - Ache tempo para explorar-se a si próprio. Torne-se inocente, brincalhão, sinta-se confortável diante do desconhecido.
MC - Mas como se faz isso?
Chopra - É simples. Em inglês nós dizemos: "take it easy". Relaxe, pegue leve. Para que tanta excitação, nervosismo, ansiedade? Para que tanto barulho?
MC - Sim, e como conseguimos essa atitude? Você simplesmente resolve que daqui para frente não vai fazer tanto barulho por nada?
Chopra - Exatamente. Você resolve e muda sua atitude. É assim. Claro, existem técnicas que ajudam nesse processo. Mas se você não estiver pronto para a técnica, não vai dominá-la. Basicamente são técnicas que libertam o ser humano. A meditação é uma delas.

http://marieclaire.globo.com/edic/ed101/chopra1.htm




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